Humanário

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 I – Homo Ternus Apressadus

Se um dia você for à metrópole de São Paulo, não deixe de observar algumas de suas espécies mais interessantes. O Homo Ternus Apressadus habita toda a região, mas é mais frequentemente encontrado no centro expandido da cidade. Possuem um ciclo migratório semanal, por cinco dias são vistos na região central e migram por dois dias para as cidades litorâneas ou bairros e cidades mais afastadas; mal descansam após pegar filas imensas ou lerem papéis e papéis que levam em suas valises, e então retornam para mais cinco dias no centro. Você pode reconhecê-los pelo traje: sapatos, calças e camisas sociais, terno e gravata. Estão sempre em movimento, seus passos são rápidos, não o notam por cousa alguma. Se você se pôr à sua frente , apenas desviarão o caminho no mesmo passo constante. A velocidade dessa espécie é um fator que dificulta a obtenção de imagens. Possuem uma pelagem especial que os protegem do frio e do calor; o terno é usado em qualquer circunstância e é caracterizante do gênero Homo Ternus.

Atenção: Esteja atento se ele carrega uma pasta. Pode se tratar do primo da espécie, o Homo Ternus Advogadus. Essa variante é muito perigosa e pode atacá-lo sorrateiramente.

Estado de conservação: LC – pouco preocupante.

II – Mendigus Invisibilis

Outra espécie que será impossível de não ver – ou de ver? – em sua viagem é a Mendigus Invisibilis. Ela habita toda a cidade, porém sua concentração na zona central atinge números tão impressionantes que até este autor não consegue estimá-la. Isso se deve, em parte, pela sua habilidade de se camuflarem em lixos, ruas e entulhos, é dito que esta qualidade beira à invisibilidade.

Os transeuntes da cidade passam por eles sem nunca percebê-los, se tropicam em algum deles apenas seguem. O truque para vê-los é procurar por eles. Esteja atento ao caminhar, olhe para o chão e para becos e, então, de repente, você passará a notá-los.

Em hipótese alguma dê dinheiro a algum de seus espécimes. O Mendigus Invisibilis é extremamente vulnerável aos valores materiais e qualquer moeda pode comprometer a sua capacidade de sobrevivência naquele meio ambiente, tornando-o dependente dos humanos.

Esteja atento à concentrações visíveis muito grandes. Pode-se tratar da espécie Zumbis Crackudus, que apesar da semelhança, quando em grupos, são violentos e propensos à furtos e ataques físicos.

Estado de conservação: LC – pouco preocupante.

O Argentino

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Não é segredo algum que, ao contrário de nossas mentes, a Internet e as grandes corporações que a dominam não esquecem os registros e fatos de nossa vida. Muitas vezes, com tantas informações e correlações, sabem mais de nós do que nós mesmos. Qual não foi a surpresa de Odorico naquela manhã quando acordou e descobriu que era, e sempre fora, na verdade, argentino! Sim, um argentino nascido de pais brasileiros, por sua vez nascidos de pais brasileiros filhos de imigrantes europeus, os quais nunca pisaram na terra da prata. Mas, sem dúvida, argentino. A pesquisa na base de dados da Grande Empresa da Rede não mentia: seu nome e imagens estavam associados a outras imagens e objetos tipicamente argentinos. O nível de certeza era de mais de 99,97%, mais argentino que Perón!

Odorico não reclamou nem duvidou, sentiu-se surpreso sem estranhar. Sempre tivera simpatia pelo futebol dos hermanos e pelas hermanas hermosas. Como nunca tinha pensado sua nacionalidade? Os documentos o diziam brasileiro, não tinha por que duvidar. Ligou para seus pais para relatar a descoberta. Sua mãe desconversou. Seu pai, meio transtornado, confirmou: “Sim, é verdade. Nunca contamos para não abalá-lo.”.

Sobreveio-lhe uma rápida e estrondosa mudança física e psicológica. Dançarino de frevo que era, desaprendeu os passos e, de súbito, os ritmos brasileiros lhe eram duros; embora seus pés ainda respondessem, sua memória motora estava diferente: ganhou enorme facilidade para bailar el tango. Seu paladar modificou-se. Os taninos dos Malbec, que antes nunca notara, agora lhe eram bem mais palatáveis. Ganhou também um gosto inexplicável pelas praias do Balneário Camburíu e suas frias águas. Sua fisionomia foi alterada com o rápido crescimento do cabelo e da barba. Embora já houvesse sido apelidado de Hermano Cristo, renomeou-se, por conta, Luís “Lucho” Diego Borges.

Exausto das piadas futebolísticas e com uma inexplicável saudade do que nunca vira, “Lucho” Diego fez as malas e partiu para Buenos Aires, sua nação e seu povo. Encantou-se com as ruas de Palermo, com seus bares e milongas. Quando, enfim, cansou-se da boêmia, enclausurou-se nas bibliotecas e cafés da cidade, imerso nos livros mágicos de seus compatriotas. Em homenagem a seus novos ídolos, mudou novamente seu nome para Júlio Borges e pôs-se a escrever. Debalde foram seus esforços. Após meses nas bibliotecas e livrarias da cidade, tudo que conseguiu foi um conto no qual um argentino subitamente acorda e percebe-se brasileiro, mas isso não seria, de modo algum, um conto para fazer jus a seus hermanos mestres do fantástico, quanto muito apenas um (péssimo) pesadelo à lá Metamorfose.

(Davi Romboli)

Os Homens da Lua

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O poeta José da Rosa, autor do célebre verso “Esta vida só vai bebendo” e variações, poucos sabem, antes de dedicar-se às letras foi homem da lua, o primeiro deles.

O mais antigo registro da Grande Biblioteca Lunar, localizada nos andares mais altos da sede dos Homens da Lua, data dos primórdios do Egito Antigo. Nele é narrado a chegada de misteriosos forasteiros às margens do Rio Nilo, os quais, em pouco tempo, demonstraram-se grandes sábios. Com seus ensinamentos a colheita dos anos seguintes multiplicou-se, e a terra do Nilo prosperou como nunca antes. Um dos sábios caiu nas graças do Rei Faraó. Matemático, Yusuf projetou os primeiros magnificentes túmulos piramidais, um culto ao conhecimento  e monumento à Grande Lua, a qual iluminaria o caminho para os reis em seu pós-vida.

O manuscrito de Giuseppe di Carvo é outra das maiores preciosidades da Biblioteca. Filho de uma proeminente família de mercadores locais, Giuseppe ingressou jovem na irmandade. Para sua iniciação foi exigido que observasse a lua todas as noites, até que pudesse compreendê-la. O jovem contemplou-a infrutiferamente por 21 dias, até descobrir o melhor ponto de observação da cidade, uma colina próxima a residência da família de mercadores rivais. Pretendia, com uma luneta, mapear as crateras lunares ou desvendar o seu lado escuro. Todavia tudo que suas lentes viram foi uma donzela, filha única de seus inimigos; apaixonaram-se. E a cidade entrou em guerra, mortes em ambos os lados e um final trágico com a vida a se extinguir dos pulmões de sua amada. Giuseppe fugiu em um barco para a Inglaterra, adoeceu na viagem e morreu pouco depois de chegar em terra. Em seus últimos dias relatou sua história em um manuscrito, confiado a um artista local que conhecera em uma hospedaria. Futuramente a Irmandade recuperaria os escritos, mas não antes que o artista o modificasse e o publicasse como dele próprio.

Diversos homens da lua tiveram sua participação, obscura e discreta, nos maiores acontecimentos da humanidade. Conta-se que o Professeur Rozen foi a grande mente doutrinária do Iluminismo e teria, até mesmo, tomado armas e sido um dos responsáveis pela Queda da Bastilha. Terminou esquecido, sem registros e com a cabeça separada do resto do corpo.

Outros homens da lua, não menos geniais, são pessoas comuns, sem muita notoriedade. Como exemplo, o compositor J. Waters. Obcecou-se pelo lado escuro da lua, por dez anos compôs um álbum e então o descartou por uma nova obsessão: o lado iluminado. Entregou as músicas para seu primo, que as gravou com seu conjunto de rock, alcançando imenso sucesso. Quanto ao novo álbum, continua a pensá-lo sem nunca ter escrito uma letra sequer.

A parceria com os Homens da Lua nunca foi oficializada. O programa espacial estadunidense fracassou em seus primeiros anos, até que os governantes e chefes do agência compreendessem que não seria possível alcançar seu objetivos sem a participação deles. O brasileiro José da Rosa foi o nome indicado pela irmandade. Fora dos palanques comandou de fato o Projeto Apollo. E não apenas esteve em missões, como foi o primeiro homem a descer do módulo lunar da nave 11. Cogitou-se até americanizá-lo. Mas a ideia de naturalização foi rechaçada, não seria Joseph Rose, falso americano, o primeiro homem a pisar em nosso satélite natural. Outro tripulante levou a fama, Armstrong, que não era o músico de jazz.

Para superar a desilusão, retornou a seu país natal e foi morar no litoral baiano, donde passa os dias na praia bebendo cerveja e na qual surgiram inúmeras e maravilhosas poesias, muitas jamais escritas. De ruim o futebol, deu para torcer pro Bahia. Esta vida… só vai bebendo.

(DR)

Prólogo para “Assim falou Borba Quincas”

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Muito se fala nas ruas do mais plebeu dos filósofos, o grande pensador brasileiro Borba Quincas. O estudo de sua obra no decorrer dos últimos anos têm mostrado diversas perspectivas e descobertas que permaneciam obscuras em parte por não ter deixado, o filósofo, nada escrito. É certo que seus pensamentos permanecem pungentes na mente do povo, todavia urge fazer-se recordá-los, pois é mais frequente com os anos e já se ouvem muitas falácias e inverdades, como máximas falsamente a ele atribuídas que visam corromper a filosofia deste grande homem. Assim, tomo para mim, discípulo e humilde seguidor do mestre, a tarefa, indigna, eis que nenhum homem seria digno de fazê-la, de esclarecer as lâmpadas, ligar as costuras, registrar os registros do princípio, das verdades e de como falou Borba Quincas.

Dentre os tópicos mais contraditórios e especulativos na vida de Borba Quincas, sua vida pré-filosofia é o que causa mais controvérsias. Não há consenso e nem tampouco qualquer informação a respeito de quem foi o grande ideota e de como partiu para sua jornada de conhecimento, iluminação e busca por uma verdade indubitável.

É de comum acordo entre os especialistas que Borba foi mendigo, um morador de rua no centro de São Paulo, e, como seu discípulo, reforço esta ideia, pude eu por inúmeras ocasiões sentir seu cheiro nauseabundo por dias antes que enfim regressasse de alguma viagem ou retiro espiritual ou de um porre em outro páis. A intensidade de seu cheiro guiou multidões ao seu encontro e serviu de cálculo para localização espacial quando satélites encontravam-se em manutenção. Após alguns anos seus seguidores adquiriram a habilidade de rastreá-lo com apenas uma fungada: “Opa! O mestre foi pra Argentina de novo.”.

Contudo é esse mesmo comum acordo que gera uma das questões sem respostas de sua vida, seu nome. Pode passar despercebido ao leitor desatento e até mesmo a grandes estudiosos que o nome de nosso filósofo, Borba Quincas, seja exatamente a inversão do sobrenome com o nome de outro filósofo brasileiro, Quincas Borba. Veja, se movermos o sobrenome “Borba” para a frente do nome “Quincas” temos “Borba Quincas”. Incrível, porém, é que este ainda que vivendo um século antes também andou pelas ruas como mendigo. E isso, como também uma mulher banguela que foi ouvida o chamando de Adalberto, levou-me a duvidar de seu nome de batismo.

Os mestres de Cambridge, as crianças de Genebra e os nóias da Rio Branco parecem certos de que “Borba Quincas” é uma homenagem a Quinca Borbas por assim como seu antecessor ter passado pelas ruas e seguido o passeio da iluminação pública. A inversão do nome representa que as semelhanças entre os dois filósofos não adentram no campo da ideias. Esse seleto grupo tem trabalhado para a propagação e aceitação desta corrente.

Um grupo de donas de casa desocupadas, lideradas por uma tal Dona Creuza Alcovitis, têm espalhado que Borba é bisneto de Quincas e que este veio a falecer quando o bisneto gastou sua fortuna e foi morar nas ruas. Carioca, morreu de desgosto por ver um bisneto trocar o Rio por São Paulo. Esta teoria é um absurdo, e se a cito aqui não é por dúvida de sua inverdade, mas para expô-la ao ridículo. Pois então, gargalhemos…

Como nenhuma dessas duas hipóteses é amplamente aceita pela comunidade científica, embora seja pela comunidade #2374588 da rede social de computadores, celulares e refrigeradores, esta que lhes exponho já tem ganho credibilidade sendo citada em dois artigos de estudantes bolsistas do primeiro ano de graduação na faculdade não desta esquina, mas da outra. Em um de seus muitos delírios de aguardente ouvi claramente o filósofo resmungar certas palavras, eis o que pude distinguir. Caminhava o grande homem pela Avenida Ipiranga quando um cabide azul, desses de plástico grosso, atingiu-lhe a cabeça vindo de um dos apartamentos ocupados por funcionários públicos, sempre funcionários públicos; praguejou contra o nada, mas resolveu pegar o cabide de recordação e para coçar as costas. No dia seguinte caminhava novamente pela Ipiranga para se aquecer do frio, e ao passar pelo mesmo ponto recebeu uma meia furada no cocuruto, a vestiu e pode assim suportar a noite fria. No outro dia estava com fome e lhe caiu um sanduíche. Intrigado no quarto dia desejava saber a razão de tudo aquilo e ao passar olhando para cima recebeu na face um volume da Grande Enciclopédia Britânica. Nas ruas andava sangrando e a amnésia era tamanha que nem se lembrou de lembrar que havia esquecido e ao ler a enciclopédia se identificou com a seção de um filósofo que lhe cabia na descrição, julgou ser ele, mas como a entrada trazia o sobrenome antes do nome, como é típico dos países de lá do borogodó, mas não de cá do maracujá, nomeou-se Borba Quincas.

(DR)

Gregório Mendes

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Gregório Mendes perdeu em definitivo a razão no dia 20 de abril de 2010 após ver um porco voador bater em um tanque de guerra em plena Rua da Consolação. Entretanto Gregório ganhou uma amiga muito mais extravagante e fraterna que o acompanharia por toda a vida: a Sandice. E de fato ele pensava ter consigo uma mulher com esse nome; apaixonou-se e até pleiteou no tribunal um casamento. E tudo isto em apenas poucos segundos, por fim conformou-se com a irrealidade da amada, do juiz e da petição e a deixou de amar.

Gregório Mendes recuperou a razão temporariamente no dia 20 de abril de 2010 após ficar dez minutos em um congestionamento e adormecer de olhos abertos, perdeu pois o ponto de descida e teve que correr ao trabalho, deixando suas fantasias e sonhos dormindo no banco pronta para pegar o próximo notívago sonolento. Já a Sandice ficou a conversar na Praça Ramos com um mendigo que jurava descender ora de Sócrates ora de Villa-Lobos ora de Paulinho do bar da esquina que tinha metade de sua idade. O papo tava bom que ela não percebeu que o amigo se distanciava rapidamente ou, mais provável, percebeu e ficou com preguiça de ir atrás, pois sabia que eles não tardariam a se encontrar – ou então não sabia nada e só tava com preguiça mesmo.

Sandice impressionou-se mesmo com a maestria lógica do mendigo. E o elogiou:

– Mas mendigo como sua lógica é mestra! Como você é inteligente. Como você é sábio. Como você é esperto. Como você fede. Já pensou em sair andando pra dissipar o fedor?

E assim teve início a famosa jornada do filósofo Borbas Quinca, esta jornada e seu retorno impactante sobre a sociedade é retratado na obra Assim Falou Borbas Quinca, e o autor por ser ignorante ignorou as relações do grande filósofo com nosso querido protagonista e sua ex-amada. Expôs um falso motivo para a inspiração que levou o homem de mendigo, que apesar das misérias já apresentava a notável genialidade, ao homem mais sábio senão da história ao menos do século, senão do século ao menos daquela esquina.

Atrasado, Gregório ouviu um monólogo do Chefe. Mais calmo, já na mesa vendo pilhas de papéis acumulados, resolveu descansar e lembrar-se dos efeitos curiosos da manhã. Mas logo Sandice chegou, foi até a mesa de trabalho e sentou-se nela dizendo enquanto cruzava as pernas:

– Pensou que poderia escapar?
Ou talvez tenha dito:

– Caramba moço, você anda depressa.

Ou quem sabe reclamando:

– Nem pra me esperar! Você deveria ter conhecido o Borbas. Que sujeito!

O caso é que Gregório não prestou atenção, pois tentava ver se conseguia ver alguma coisa sob as penas cruzadas da mulher. Conseguiu e não conseguiu. No meio delas havia um aparelho televisor que transmitia o jogo do Curíntia e do Parmera, este estava muito parado, o juiz marcava faltas em qualquer lance de trombada. Cansou então e concluiu que ela estava menstruada ou com diarréia.

Nisso o Chefe lembrou-se de manter sua imagem, inspecionou o nariz com o dedo, inspecionou a bunda da secretária, inspecionou o decote da estagiária, inspecionou o furúnculo entre as costas e a bunda, inspecionou o telefone, ficou dez minutinhos num interurbano, inspecionou a mesa, limpou uns papéis dela, inspecionou a mesa de Gregório e jogou-os nela.

– Vagabundo! Tome e vá fazer alguma coisa.

Gregório não se levantou e não foi à mesa do Chefe não gritando com ele e não o mandou comer favas. Ao contrário comeu ele mesmo as favas, e deu sorte de encontrá-las ali mesmo com Sandice, ela as havia comprado do Cavalo Branco de Napoleão por um preço bem em conta porque ele as temia envenenadas enquanto estávamos distraídos com a bronca em Gregório. Agradeceu o cavalo e mandou lembranças ao baixinho, reclamou que há muito ele não fazia um telefonema, aquele ingrato.

E não é que Sandice continua aprontando das delas. Enquanto eu relia todo o texto, ela saltou dele, me chamou de lado pra ninguém ouvir e disse: “Sabe, até que você me agrada. E tem o poder, gosto disso. Tudo que você diz eu faço, tudo o que você disser eu farei. É só um mover de lápis e eu ganho na loteria. Então poderíamos fugir e esquecer o Gregório. Só você, Davi, e eu, Sandice, felizes num paraíso tropical, ou nas montanhas geladas como você preferir…”. Eu vislumbrei o pouco de minha razão no dia 17 de agosto de 2010, após me ver tentado por uma mulher manipuladora que apesar de não existir intentou me tirar a determinação de escrever. Mas isso não importa. E ela conseguiu o que queria, me distraiu para que eu não visse a saída furtiva de Gregório do trabalho, talvez por medo que o Chefe descobrisse, ou para atrapalhar a narração das desventuras do casal, ou ainda – embora não creia – quisesse o dinheiro, e quem sabe, a fuga… Ó doce Sandice não me tome por cruel, não me culpe. Mas não tente se interpor entre a Literatura e eu, não vou abandoná-la por novas ilusões. Sim, pois muito do que há em si há na sua prima Literatura. Basta! Continua a me distrair para que esqueça a estória. Pois eu me vingo.

Sandice tropeçou e caiu de boca na quina do parapeito do Viaduto do Chá, enquanto tentava alcançar Gregório que cansada de esperá-la resolveu almoçar sozinho. Levantou-se e me mandou à merda, mas eu não fui porque quem manda aqui sou eu! Entendeu? Sou Eu! Gregório já mordia o segundo pastel quando ela o encontrou. Não havia dito, mas saibam que Sandice é uma dessas jovens madames francesas – não essas velhas com toxinas na testa; mas ao estilo antigo, dos romances de Flaubert – meio enjoadas, meio modernas, meio nada. Ela então enjoada com o cheiro do óleo não quis um pastel, depois não quis nenhum salgado, e não tinha fome para comida, queria e queria um éclair au chocolat. Resignado foram subindo e subindo a Consolação, mas ninguém conhecia, ninguém tinha, e não me refiro ao grande Ninguém – ele não tem nada a ver com esta estória. Subindo e subindo. Pararam no Cemitério, a Morte que estava sentada cortando as unhas do pé sobre um túmulo recém-fechado, batendo um papo com o Morto ou talvez com os Vermes que começavam a disputar a licitação para o novo terreno arrendado, a interpelou:

– Minha amiga Sandice! Traz um novo amigo para mim e para os Vermes?

O Morto protestou:

– Mal chego e já quer me trocar por outro! Ingrata, se soubesse não teria vindo.

Irritada, nossa amiga demonstrou que apesar de malandra, safada, corrupta, descarada, insolente tem caráter e num pulo encaixou a bola nos braços, sem tomar frango, sem espalmar pra escanteio:

– Este você não toca, este você não me tira.

Sensibilizado com a defesa de Sandice, Gregório prometeu não descansar enquanto não encontrasse o éclair au chocolat. E seguiram rumo aos Jardins. Mas Sandice não quis, sabia que lá haveria abundantes cocôs de cachorros que madames (essas sim velhas de toxina na testa!) não recolheram dos seus cuti-cutis filhotinhos da mamãe. Desse modo mantiveram distância do outro lado da Avenida Paulista, e nesta encontraram o tal do éclair que era apenas uma bomba de chocolate, e não a atendente ruiva chamada Claire.

– Eita, uma bomba de chocolate. Me fez andar tudo por uma bomba de chocolate!

Mais uma vez irritada, tanto pela reprimenda quando pela atenção de Gregório em Claire, fez a bomba de chocolate explodir dentro da calça da moça que saiu correndo ao banheiro envergonhada. Os dois saíram reclamando:

– Ciumenta.

– Corno. (E piscou para mim lembrando-se da loteria.)

Um cheiro impregnou toda a atmosfera, um cheiro que só Sandice podia sentir. Um misto de titica de pombo com o tártaro da boca de Borbas e um parfum de folhas de capim processadas no estômago dos bovinos, tecnologia de Paris. E esse cheiro vinha do Ibirapuera. Sandice logo percebeu que ele era produto da queima de idéias em uma discussão entre Borbas Quinca e seu ex-namorado, Eurico Madalena. Perdão Sandice, mas eu devo contar sobre o Eurico.

Nos idos da Segunda Guerra Mundial, Eurico, um jovem soldado do Terceiro Reich, conheceu uma jovem francesa de nome Sandice e perdidos no caos se apaixonaram. Porém Eurico era um homem convicto, nunca negaria ao Führer, nem por dinheiro, nem por amor; vislumbrava um futuro inda maior: Seu Líder governaria pelos séculos e pelas galáxias, pois conhecia a verdade oculta. Os alienígenas o haviam mandado para preparar o caminho para a nova humanidade. Sandice entretanto ainda não tinha calos no coração, e com grande pesar traiu sua pátria. E traição sucedeu traição, e através do incorruptível Eurico, que passou a freqüentar um psiquiatra e notou que a guerra acabara há mais de cinqüenta anos – mas que Hitler está vivo está; e em breve seu exército irromperá pela Terra. Sandice foi banida e conseguiu asilo no Brasil, e eis o porquê do ceticismo dos franceses.

O Grande Embate, como ficou conhecido o diálogo entre Eurico e Borbas, deu-se na Praça da Paz reunindo em torno das duas magnânimas figuras três mendigos, dois ladrões, seis distraídos, dois transeuntes e quatro curiosos. Este o primeiro grande feito do filósofo após seu chamado e último antes de sua viagem pela América. O conteúdo do diálogo ainda permanece como um dos maiores mistérios a respeito da vida e obra do filósofo brasileiro, apesar de recentes estudos e descobertas que podem iluminar o caso.

Logo na entrada do Parque, Gregório se distraiu com os complementos de uma corredora, e não viu o poodle que se aproximava e aproximava até pisar no seu dedão encravado. Assim mancou o resto no caminho, e só chegaram a tempo da última frase de Borbas Quinca:

– Uma palavrinha por uma cachacinha!

– Aeeeeeê! – todos gritaram aclamando-o vencedor.

Gregório roncava em um dos bancos enquanto Sandice se despedia de Borbas:

– Vá logo e vá para a Argentina que você está fedendo a merda!

E rever Eurico:

– Você… Como tem passado?… Ouvi dizer que se casou com a Razão?

– Pois é. Quanto tempo… Que tal sairmos um dia desses? Pra lembrar os velhos tempos…

– Num vem que não tem! Esse não tem jeito mesmo. – pensou.

Eurico tomou umas cápsulas e saiu pela tangente, rumo a um lugar onde nem senos nem cossenos jamais pisarão. Sandice acordou o amigo, satisfeita por ele não ter ouvido a conversa. Aproximaram-se da uma árvore, Sandice bateu no tronco, não havendo resposta, abriu a casca e ambos entraram na árvore, saindo da mesma forma pelo outro lado, e – incrível – estavam de volta à Avenida Paulista em meio ao Parque Trianon. É tão incrível que eu não creio. Talvez tenham entrado no banheiro puxado a descarga e saído no banheiro do Trianon. Ou subiram de ônibus mesmo já que Sandice é uma mentirosa. O mais curioso: já caminhando na calçada, depararam-se com um jovem que após cruzar a rua jogou uma bituca de cigarro no chão e pisando-a a apagou. Gregório pisou-a novamente a reascendendo. Sandice então pegou o cigarro e o levou a boca fumando como madame francesa que é.

Dois passantes exclamaram:

– Esse sol hoje tá de matar!

– Bem que podia chover hoje.

O Sol fitava com ódio todos aqueles que gratuitamente tiravam sua energia sem nem ao menos agradecer. Raiva pela adoração há muito finda. Sandice olhou feio para ele que envergonhado se escondeu entre nuvens. Chamou então pela Chuva, mas ela se negou a aparecer, a muito custo falou:

– Hoje não saio. Cansei desses ingratos loucos. Se venho querem que eu vá, se vou querem que volte. Tão é de sacanagem!

Quando perceberam estavam diante de Macunaíma e seus dois irmãos que acampavam em frente a uma mansão na rua Maranhão. E a mansão era de Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaimã comedor de gente. Logo que o imperador do mato viu Sandice adiantou-se:

– Mani! Mani! filhinha da mandioca…! Vamos brincar? – já a agarrando pelo braço.

– Saí, praga! Pra lá ô coisa ruim! Vá pro Cafundó do Judas procurar suas amigas.

E ele disse que não ia não porque tinha que recuperar a pedra muiraquitã do gigante Piaimã comedor de gente, e ficou matutando um jeito de se vingar dela. Mas não conseguiu já que o gigante surgiu com seu canto:

– Ogoró! Ogoró! Ogoró! Comer índio Macunaíma é melhor que comer jiló!

Os irmãos então se esconderam e não sei mais o que ocorreu. Os dois fugiram dali que ficar pra macarronada do gigante não é bom não.

E cansado da andança Gregório enfim sai do torpor que o emuderecera.

– San. Vamos embora, preciso descansar.

– Não, é muito cedo ainda. Que tal um cinema? Ou mais uma caminhada por aí, de repente me deu vontade de outro eclair, mas de outro lugar.

– Você está louca, Sandice?

– Para que tanta pressa?

– Esse meu dedo está me matando, já andamos demais. Vamos meu bem…

E no meio da discussão um garotinho meio retardado com uma câmera fotográfica captou a imagem de outro retardado que gesticulava ao nada. E quando revelada se surpreendeu com a imagem de uma mulher elegante a qual ele tinha certeza que não estava lá. O caso foi de amor à primeira vista. E o pequeno besta – como era carinhosamente apelidado pela mãe – passou a tirar fotos e mais fotos na esperança de rever Sandice. Tornou-se um artista famoso, admirado por todos os entendedores de adulações. Cinqüenta anos mais tarde em uma exposição das fotos de infância que já continham o chamado do grande gênio, algo inesperado ocorreu. Daquela foto dos nossos amigos um rasgo surgiu, rompendo também o tempo e espaço do momento onde a foto foi batida. E em meio ao limbo eterno sem forma nem compasso, interrompendo a discussão o gigante Tempo bradou:

– Então tem pressa, meu caro Gregório?

E com sua voz retumbante tossia e escarrava.

– Pressa de tudo na vida, Gregório? Quer que o amanhã chegue logo?

E tambores retumbavam, e pandeiros pagodeavam. É o Netinho, gente! Um pagodinho com cerveja pra cata a mulherada na serra de Copacabana…

– Pois então concedo seu desejo, Gregório! – risos e escarros.

Uma sala branca muito iluminada. Decrépito, Gregório repousava no leito. Surdo de nariz, cego de cabelos, corcunda nos testículos, ele ouvia os tímidos prantos de Sandice. A enfermeira disse que não passaria de hoje.

– Ó meu querido Gregório.

– Quem Sandice? Conheço o Tenório não.

– Eu disse Gregório. Gregório.

– Simplório? É bem simples, mas gosto daqui.

– Você gosta é da enfermeira velho surdo!

– Quê? Uma brotoeja no fundo? Chame a Enfermeira então.

Na serra de Copacabana, na serra de Copacabana, sim! Reboladinha, ai! Uma sambadinha, ui! Na serra de Copacabana. Na serra de Copacabana.

– Ah eu te mato! Idiota! Safado! Gregório? Senhor? Senhor? Moço?

.. .

. ..

. . .

. .. .. . . …

– Ei, moço! Este é o ponto final.

E Gregório ainda atordoado desceu do ônibus. Sandice do lado de fora o esperava, não imaginou que tudo acabaria assim tão fácil.

E o autor inda mais atordoado desceu do ônibus com uma estória, um sonho na cabeça e a vida quotidiana a chamá-lo.

(DR)

Os discursos do Padre Leléu

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Sou o quê sou. Vou pra onde vou. Vim de lá das terras na qual o Arcebispo Novaes declarou guerra às garotas de biquíni. Por algum tempo agraciaram-no pela sabedoria, se descobrir-se numa festa, ou perante amigos e vizinhos é indecente, por que despir-se no litoral não seria? Depois foi duramente criticado pela mídia local, por jovens e pais liberais, pois não há cabimento para tal conservadorismo. Por fim, veio à tona sua verdadeira intenção, não lutava contra o biquíni, lutava sim contra o biquíni, mas não para que voltassem aos tempos de calças curtas e camisolas, e sim para que os tirassem de uma vez. O escândalo foi geral, uns acusaram o padre de safadeza, outros mais o aclamavam pela fé na inocência humana, andemos sem vergonha, como Adão e Eva andavam puros perante o nosso criador. Sem-vergonha foi como foi chamado no bingo da Associação de Tricô das Senhoras do Largo Treze quando em uma manhã de sexta-feira despertou na orla nu com quatro jovens estudantes nuas, três de filosofia e uma intrometida do curso de jornalismo, a qual vagava de madrugada à procura de pequenos desastres. As críticas não o abalaram e, seis meses mais tarde, não foi nenhuma desilusão provinda do caso senão um tédio inexplicável que o fez abandonar a vida clerical para o surfe. Seus sermões na areia ficaram conhecidos como “Os discursos do padre Leléu”. Reuniu uma dúzia de jovens seguidoras e partiram a nado ao Atlântico à procura de melhores pastéis com caldo de cana. Por sete semanas vagaram à deriva, nove das doze estudantes sucumbiram e os demais recorreram ao canibalismo antes e depois de chegar a salvo a uma pequena ilha de nativos figurantes de filmes hollywoodianos que ali foram esquecidos, e o pior, não havia nem pastéis nem caldo de cana. Após o retorno de uma das jovens grávida de trigêmeos todos mortos antes do estado embrionário, o padre proclamou-se auxiliar do norueguês que fazia o papal de pajé, mudou o nome para Mano Kumbala-Notura e dele nunca mais se ouviram notícias. Quem sou oras? Sou aquele que vos anuncia que nasceu na cidade do João das Terras Vãs, aquele mesmo que enlouqueceu por ser único homem numa casa com vinte irmãs. O que vim fazer aqui? Eita curioso! A curiosidade matou o gato. A intromissão cegou o cão. O gordo Morato sentou-se em cima do rato. A obscenidade livrou-se dum padre. E o louco escreveu um pouco.

Calorosa madrugada,
com que viva ilusão
trouxeste-me à mente
a esperança da verdade
do meu mais gigante ser.


Fria manhã,
com que desprezo
cortaste meus sonhos
e trouxeste-me de volta
à cruel realidade.

(D.R)

A cidade maldita

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A rodovia I.. estava interditada. Seguimos, centenas de caminhões e eu num carro pequeno abarrotado de equipamentos, caixas e instrumentadas pouco úteis para o serviço, pela Estrada Velha de M… Sabia-me atrasado, mas nada tiraria meu bom humor de viagens. Como uma criança sempre me maravilho diante da mata preservada, autoestradas que as cortam e se escondem sobre árvores centenárias, o som dos grilos e das buzinas. Um grilo tomava café no acostamento indiferente aos veículos de carga que ocupavam a faixa de automóveis. Diante de minha curiosidade infantil surge uma tenra tentação, ignorei as objeções da mente adulta e adentrei numa pequena estrada de terra batida que nunca havia notado, a qual me levaria a uma rota alternativa – a rodovia A.. – se meu senso de direção não me falhasse. Desde que esse cliente nos contratara as viagens tornaram-se rotina, relutei a princípio, mas com as horas a menos de trabalho e horas-extras não pude negar. Logo me agradaram e dispensei o estagiário para melhor observar o derredor das estradas, me ofereci para os serviços de outros clientes, no natal ganhei um passaporte de gozação, certamente ideia do Silas, um grande brincalhão, não agrega muito aos projetos, mas mantém o humor elevado. E até então não havia nenhum arrependimento. Tomei, pois, a pequena estrada, não havia carro, nem motor desmanchado à vista, inda assim não ia a velocidade maior que naquele intenso congestionamento, a cada trecho mais obscuro, a cada árvore peculiar reduzia os giros quase parando as rodas. No primeiro trecho nenhum contratempo, nos demais apenas um. Um tronco de árvore obstruía a passagem, não era grande, porém em meio ao nada sem estepe não arrisquei, reuni a coragem de meus quarenta anos e desci para empurrar o tronco afora, o escuro me paralisava, nem notei os insetos, vermes no tronco, cobras e os olhos na mata. De volta ao alívio do banco do motorista, e aos olhares oblíquos lançados ao matagal, segui feliz sem mais paradas.
Avistei a rodovia A.. satisfeito com meu senso espacial e ela estava livre, assim como minha mente purificada pelo ar florestal. Logo nuvens começaram a se adensar e uma neblina tomou forma, reminiscências do esquecimento, um déjà-vu tudo aquilo me parecia.
C.., ou simplesmente a Cidade Maldita como é chamada pelos habitantes dos municípios vizinhos, pois em suas ruas não há casas, em seus prédios não há vida, toda vida é passageira, e a cada passagem se encurta sugada pela Usina. As grandes chaminés das fábricas se espalham por horizonte além, a densa fumaça logo se junta às outras que criam e cobrem toda a cidade com uma nuvem tão espessa que nenhum raio de sol consegue atravessá-la, a boca da Usina a alimenta constantemente. A Cidade Maldita não via sol há três décadas e meia, desde que em um sábado à tarde quando a nuvem se dissipou com os fortes ventos e após muitos anos, desde o Grande Acidente na Usina, o sol voltou a brilhar e iluminar a face dos poucos habitantes que inda não se haviam retirado. Cintilou por não mais que três minutos.
A estrada segue, caminhões cheios em fila entram na Usina. Caminhões vazios cheios de podridão retornam da Usina. Mas vivalma não há que por ali passe e não deixe um pouco do seu sopro vital, pois, o ar é solido do mal poeirento que destrói as veias, artérias e sonhos.
E por isso não passava via A.., nem mesmo quando reduzisse o tempo da viagem, sem vista, horas de carro de nada me valiam e havia algo a mais, tormentos, assombros, ecos de um vazio ancestral, lembranças. Pensei em retornar pela pequena estrada, mas nenhum mal-estar justificaria o atraso, o cliente não aceitaria.
Era preciso sair logo dali. Tecendo por entre caminhões, na estrada seguia sem conseguir escapar das dimensões da Usina. Então mais uma vez um raio quebra a resistência da Nuvem, e o sol a dividindo a cidade outra vez mais ilumina. Mas tudo é sugado pela insaciável Usina, nada lhe escapa, a luz, o calor, o amor, os sorrisos são a matéria-prima para a nuvem maldita. O sol precisava fugir senão logo também se consumiria. Eu precisava fugir, senão… A palavra “senão” ecoa no carro, toda esta situação não me é estranha, é verdade, é este sonho recorrente que me acompanha por toda a vida, mas sei que não estou sonhando. Fugir, fazer o serviço, me livrar das caixas, das estradas, da Cidade. Sem demora afundei todo o acelerador na estrada novamente vazia, a Usina ficava, mas seus domínios malignos se estendiam até as bordas da cidade. A palavra “senão” ecoa na entrada da ponte e a vertigem me toma, é a Usina que enfim me entrelaça, chama, suga a cada instante meus sopros de vida, todo o meu fracasso se mostra diante aos meus olhos, os sonhos deixados, a mulher esquecida, um trabalho resignado, abdicação de desejos, inda dos mais simplórios, toda a minha acomodação é atirada ao meu encontro, a Usina nada perdoa, a Usina nada perdoa. E ao fim da ponte a vida se anuncia: “Limites dos municípios de C.. e S..”, mas o único fim que vejo é o de atirar o carro ponte e rio abaixo, atirar-me de encontro ao poste de sinalização, como há trinta e cinco anos… Ó não… Não… Senão. Senão.
Trinta e cinco anos antes a palavra “senão” ecoa em um carro como este onde estávamos eu, mamãe, papai e Julinho. A Cidade me assustou e Julinho até chorou, não podíamos ver as árvores que tanto nos distraíam e para acalmá-lo começamos todos a jogar adivinhação. “É homem ou mulher? É da família? Tem bigode? É o Vô Carlos.” Quando de súbito o sol se mostrou, a neblina se desfez e toda a linda paisagem não destruída pela Usina como de um sonho distante emergiu. Julinho tirou o cinto e subiu no porta-malas ver a boniteza que ficava pra trás, eu me virara pelos lados e me atracava com Julinho pelo lugar.
– Vocês fiquem quietos, por que pararam o jogo? Vamos… – disse mamãe – Ponha o cinto.
– Sai pra lá.
– Não! Sai você.
– Sai!
E então papai interveio:
– Parem os dois, senão…
A palavra “senão” ecoa, ecoa.
Um raio de sol atinge forte o para-brisas, papai perde o controle, então o poste, o sangue, a casa de vovó, as brigas na escola, não tenho culpa de ser órfão, não tenho culpa, tenho? Tenho? A saída fácil pelo rio clama-me, o poste quer encerrar o começado. Reuni tudo que me restou e prendendo a respiração alinhei o carro e de olhos fechados segui, segui, e agora vejo a placa “Limites…” já atrás. Estou livre. Saio do carro e corro até uma árvore, apoiando-me nela ponho para fora o almoço, a bile, e todas as tripas que em mais de três décadas a Usina apodreceu.

(DR)